Sinto saudades da Mariana. Mari parecia saída de um poema de Bukowski. Bêbada, desbocada, neurótica e gostosa. Feia e magra, mas gostosa. Nos divertimos muito juntas, por uns dois verões. Ela seduzia os rapazes nos bares, mas deixava-os na mão, enquanto sussurrava umas putarias no meu ouvido. Gostava de mulher, eu só gostava dela, porque ela era especial, meio louca. Me ligava às 4 da manhã, sempre de porre, sempre de um boteco. Pegava um taxi que eu pagava e dormia comigo. Aninhada como um passarinho, só sossegava ali, adormecida entre os meus lençóis. Eu queria casar e ter filhos, ela queria morrer numa overdose de ácido, trepando. Eu queria paz, mas não podia abandoná-la. Sabia que mais cedo ou mais tarde aprontaria, e que eu era quem podia detê-la. Ela me disse que eu era sempre tão feliz, que ela mal podia suportar, e que sua miséria não combinava com meu apartamento bem arrumado. Me perguntou se eu não tinha medo dela e de que sua tristeza fosse contagiosa. Fiquei em silêncio, não sabia o que dizer. Podia ter dito que sim, mas não era verdade. Mari era sincera, e eu não poderia mentir para ela. Eu sentia pena, carinho, compaixão, mas não tinha medo. Ela me olhou apegada ao silêncio, ela com os olhos cheios de lágrimas, a maquilagem borrada, as olheiras fundas, tirou a roupa, chorando copiosamente, ficou nua ali, de pé na minha frente, frágil. Me agarrou os seios, e nós transamos pela última vez. Pegou suas coisas enquanto eu dormia e foi embora. Quando me casei com o Carlos, encontrei-a para entregar um convite. Nos sentamos num pub e ela me disse que ia ser filósofa, que fazia análise agora, que tentava parar de beber e usar sintéticos, que precisava se ajustar. Me perguntou se era sério mesmo, o casamento. Eu ri, ela sabia que era sério, eu levava as coisas a sério, ela não. Segurou minha mão, eu fiquei sem graça, paguei meu café e o cognac dela, eu disse que tinha que ir, ela me desejou felicidades e nunca mais nos vimos. Semana passada estava sentada num café, peguei uma revista e comecei a folhear. Na décima quarta página tinha um artigo sobre filosofia, assinado por Mariana Petra, no cantinho uma foto da Mari, num tailler de linho branco, maquilagem pastel, o cabelo bem preso, sem nenhum fio solto, num rabo de cavalo. Séria, mas simpática, outra Mari. Levantei, peguei minha bolsa de feira, paguei o meu café e saí pela rua, cantarolando. Sempre feliz.